8 de nov de 2017

Um Bom Homem


      Caminhava as pressas, estava atrasado. Nem um segundo a mais para admirar a exorbitante beleza do parque pelo qual caminhava desesperadamente.  A velocidade multiplicada pela aceleração dos meus passos fez com que a força resultante gerasse a dor nunca sentida de um espinho penetrando a sola do sapato recentemente lavado. E não se sentindo incomodado em se afogar um pouco mais em minha pele, não pediu pra entrar e simplesmente me feriu. Essa é última coisa que poderia acontecer, eu pensei. Me aconcheguei em um banco de praça próximo a mim e desejei estar ali por algumas horas, dias, meses e anos apenas vendo o tempo passar. Larguei minha maleta e papelada acumulada em meus bracos, retirei o sapato e logo em seguida puxei a meia, esta, suja pelo sangue nunca sentido. A minha situação no emprego o qual presto serviços a quase três anos não estava das mais belas. A crise, que recentemente afetou o país, não demorou muito a ameaçar a minha estabilidade financeira.
       Estava muito cansado, e até aquele espinho percebeu a minha aflição e me ofertou alguns minutos de descanso. Iria chegar atrasado. Para o presidente da empresa, meus motivos não importavam. Minha mãe, doente e debilitada. Meus três filhos, com idade insuficiente para aprender como se chega ao colégio. E por fim, minha esposa, dona de casa que procura por um emprego há mais de seis meses. Levanto todos os dias às 4:50 da manhã, pego duas conduções e ainda caminho por três quarteirões a pé. Reclamo da vida? Hoje, quando pisei naquele espinho, me senti necessitado e sem pensar soltei dois ou três xingamentos para um espinho que gritou pra mim "ei, olha por onde anda".
       Acho que não escutei bem, pois ainda me preocupava com o horário. Disse que nunca senti a dor de um espinho perfurando a pele do meu pé, mas não mencionei que esta já havia sido sentida em meu coração. Quando não posso sentar para almoçar com minha família, quando chego em casa e todos já estão dormindo, quando não tenho tempo para voltar para aquele parque num domingo de manhã com os meus filhos. Fui escravizado por estes espinhos, que não estão ali exatamente pra nos derrubar instantaneamente, e sim para nos transmitir a culpa de uma tarefa não realizada. Um horário não cumprido, um emprego não conquistado, uma nota baixa. O estresse, a frustração, o medo, a preguiça. Voltei para casa e pela primeira vez almocei em família. Houveram consequências, claro, mas estas logo serão compensadas. Algumas coisas simplesmente nascem para serem o que são, mas lembre-se, uma ferida nunca mudará um bom homem.

Texto Escrito Por: Ronyson Severiano

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