28 de set de 2017

Sou Navegante, Sou DeMolay


As sete virtudes cardeais, em um momento inesquecível, iam nascendo lentamente sobre os candelabros perfeitamente alinhados em volta do nosso reverenciado altar. Sete velas, sendo acesas serenamente uma por uma. Observei-as e, por um instante, fui derramando-me em devaneios. Ora, que deslumbrantes e magníficos são estes faróis em alto mar. Pensei. Um mar de desespero no qual eu quase me afoguei um dia. Minhas memórias não eram falhas. Astuto, deixei minhas percepções me guiarem a um momento de reflexão, uma viagem de autoconhecimento momentânea, onde reencontrei alguns de meus antigos pensamentos.
Houveram épocas difíceis em que a redenção tornou-se alternativa e, com a ausência de autonomia, estive entregue a uma fantasia depressiva onde os meus valores eram lentamente desconstruídos. Cabisbaixo, cerrando os olhos, largando os braços entre as correntezas frias.  Nunca estive a salvo, como qualquer outro, porém encontrei resgate.
Em mim, busquei em meu coração a única luz que resplandecia esperança em meio a tantas angústias. Seu brilho podia ser visto, e reconhecido, a quilômetros de distância. Uma chama, de essência única e insubstituível, que me guiou até o que, hoje, eu chamo de porto seguro. Levantei-me sobre o horizonte marítimo e lá estavam elas, as sete grandes luzes. Caminhei pela praia sentindo o calor dos milhares pequenos grãos de areia enquanto relutava contra minha vontade de voltar atrás. Desistir e fechar os olhos.
Estava confuso, perdido e insatisfeito comigo mesmo. Por muitas vezes, falhei como amigo, como irmão, como filho e como ser humano. Nunca me faltou inspiração ou desejos, entretanto, negligenciei a coragem necessária para construir sobre o universo o que todos conhecemos como legado. Sinceramente, achei que aquela era a última página da minha história. Em branco, que neste mesmo instante passou a ser reescrita através de um novo ponto de vista, um novo pensar.
Ansiosamente, quando enfim me ajoelhei sobre aquele altar simbólico, cercado pela luz que então me confortava, um sentimento de gratidão tomou conta de minha alma e a tenebrosa asfixia alimentada por lamentações instantaneamente transformou-se em paz ao ser dissipada na atmosfera. Aquele sentimento, aquele vínculo criado, deve ser considerado como a coisa mais importante que já aconteceu em minha vida. Um momento cardial.  Em meus anos anteriores, olhava para a escuridão e leves tons de vermelho refletiam sobre a minha aura. Bastava-me um sinal verde para prosseguir. Finalmente, quando o avistei, de um afogamento em minhas próprias lágrimas, fui salvo. Senti a brisa que me respirava, senti a paixão que me inspirava.
Uma vez que respirando esse ar que me purificou e acendeu aquela chama que habita em meu coração, consagrei-me como um DeMolay. Sendo assim, o futuro me parece bem melhor, desde que eu continue navegando. Aprendi a viver, a conhecer e a compreender o passado que sempre temi. Naveguei em minhas inseguranças até me deparar com a mudança, a loucura, a liberdade, os sonhos e a bagunça que deixei em casa. No mais tardar, descobrirei o perfeito equilíbrio entre o racional e irracional.
As luzes, misteriosas e com tantas histórias para contar, compartilharam comigo um pequeno segredo, talvez grande. Pessoas mudam pessoas, e pessoas mudam o mundo. Mas, o que são essas luzes? Elas significam, em sua mais profunda essência, os sete fundamentais princípios de boa filiação e boa cidadania. O Amor Filial, a Reverência pelas Coisas Sagradas, a Cortesia, o Companheirismo, a Fidelidade, a Pureza e o Patriotismo. Sinto o poder que elas possuem, sinto a energia que cada uma delas transmite e são absorvidas em minhas veias. Acredite! São sete virtudes, para apenas uma vida.
Ser DeMolay é constantemente parar para refletir em condições desfavoráveis a sociedade e trabalhar para que ocorram transformações. Contudo, o que jamais deve ser esquecido é que ser DeMolay também é conhecer a si próprio, para então conhecer o mundo. Numa jornada sem fim, estou a caminho, seguindo o meu rumo. Sempre a diante, voando por este mar a fora, sem esquecer na mala o que me trouxe aqui, agora. Ser DeMolay é, então, ser navegante, sempre em busca de algo.   

Texto Escrito Por: Ronyson Severiano
Capítulo Paulo Afonso nº 47 da Ordem DeMolay 

Um comentário: