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O Diário do garoto que queria voar

  •      25 de Dezembro de 1998
     Hoje é um dia muito especial pra mim, pois é dia do Natal e o meu aniversário. Estou completando 15 anos e minha avó me deu de presente este caderno que ela chama de diário. Sinceramente preferia qualquer outra coisa. Mas o que posso fazer com este caderno? Quando perguntei a ela o porquê deste diário ela apenas deu um sorriso e disse "Para alimentar sua imaginação". Continuei sem entender, deixei o diário sobre a escrivaninha do eu quarto e fui receber meus primos que haviam chegado para passar as férias. Os meus primos só falavam besteiras e logo me cansei das brincadeiras chatas sugeridas por eles. Andava em círculos pelo quarto enquanto pensava em algo para fazer, até avistar o presente da minha avó e a começar a escrever tudo isso que você acabou de ler.  
  • 26 de Dezembro de 1998
     Ontem fiquei sem ideias sobre o que mais escrever neste "Diário", passei horas olhando para o teto até o sono chegar. Acabei dormindo sobre ele e babando um pouco na capa. São 10:37 da manhã e a mamãe está na cozinha preparando o almoço enquanto todos estão na sala assistindo uma espécie de dança dos famosos. Odeio esse programa então acho que vou ficar no quintal sozinho e pensando. 
     Sabe quem encontrei no quintal sentada na cadeira de balanço? A vovó! Ela estava tricotando um suéter para meu primo de 2 anos. Eu conversei um pouco com ela e falei sobre minha falta de ideias sobre oque escrever no diário. Ela me disse para não só escrever sobre o meu dia-a-dia, mas também escrever sobre meus sonhos, vontades, e até inventar histórias. Ela me disse que eu sou muito bom nisso. Quando eu tinha uns 8 anos e viajávamos para casa de praia da minha tia Alice, sentávamos todos em volta de uma fogueira e contávamos histórias inventadas na hora. Eu costumava contar histórias sobre um garoto que queria voar. Todos o adoravam, era inspirador e cativante. Meus tios elogiavam meus pais por terem um filho tão criativo. Mas eu não era tão criativo assim, eu apenas pegava meus desejos e os colocava no personagem, o garoto que queria voar. Todo dia era uma aventura diferente, o garoto fazia de tudo para conseguir voar. Ele queria voar pra longe, voar atrás de todos os seus sonhos.
  • 29 de Agosto de 1999
     Desculpa passar tanto tempo sem escrever, mas estava e ainda estou sem criatividade. Minha avó insiste em me fazer escrever sobre a história do garoto que queria voar. Todos esses meses vim evitando escrever sobre isso, mas para onde eu olhava, o diário estava lá. Ou o diário, ou algo que me fazia lembrar dele, então não adianta fugir, este diário me trouxe uma lembrança da qual fugia a muito tempo, a minha vontade de voar. A história sempre começava com um garoto andando pela floresta, ele vivia em um lugar encantado, onde todas as criaturas possuíam dons e viviam como uma família. O garoto não tinha pais e não sabia de onde viera. Enquanto seguia o caminho da floresta o garoto encontrava personagens diferentes uns dos outros. O garoto provavelmente era o único da floresta que não tinha um dom. Todos os dias quando passava por aquele caminho perguntava aos seres o que ele poderia fazer para ganhar o seu dom e todos respondiam que não sabiam e que apenas nasceram com ele.
     Certo dia  um esquilo que tinha o dom de falar como os humanos perguntou qual era o seu desejo. E o garoto olhou para o céu e respondeu. "Voar! Eu quero voar para longe onde poderei saber de fato de onde vim. Ir atrás de minhas origens." E o esquilo perguntou, "Por que os céus e não a superfície terrestre? Você sabe o que é voar?". E então o garoto respondeu com calma e leveza em sua voz, "Para sentir que tudo aqui ficou para trás quando o vento vier contra meu rosto". E o esquilo novamente indagou "Por que deixar tudo e todos aqui para trás?". E ele respondeu, "Por que este não é meu lugar, não sei o que faço aqui". O esquilo não cansava de usar o dom que recebeu e novamente falou, "Como sabes que este não é teu lugar?". E ele respondeu "Não sei de onde vim e preciso saber". O esquilo antes de se virar e ir embora falou sem dar a chance do garoto responder de volta, "E se você já tiver esse dom e só não sabe usar?"
     Eu nunca terminei a história, o que eu sempre contava era as suas tentativas de achar respostas para finalmente conseguir voar enquanto dialogava com os seres da floresta que sempre o apoiavam. Hoje eu entendo por que inventava estas histórias com 8 anos de idade. Eu sou filho adotivo. Meus pais não podem ter filhos e então me adotaram quando eu tinha uns 4 anos. Nunca conheci meus verdadeiros pais, a única coisa que eu sabia era a data do meu nascimento.
    É isso! Hoje eu consigo ligar os desejos do garoto que queria voar com os meus. Porém hoje eu sei o porquê vivo neste lugar. Eu era sozinho, eu fui abandonado e eles me acolheram como os seres da floresta faziam. Eles me fizeram voar, me tiraram do vazio para conhecer um novo horizonte e lutar por um novo destino. Hoje o garoto que queria voar finalmente teve sua resposta. Voar é fazer do seu destino uma nova chance com aqueles que lhe ofereceram uma vida melhor e não ir atrás do passado. O garoto e eu não fazíamos ideia do que nos rodeava, uma família. Se eu ainda quero voar? Claro, mas não atrás do que tive, e sim ao que eu posso ter. 



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